estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2005-11-19

A nuvem negra

É como se de repente a tua cabeça tivesse as pilhas gastas e ficasse reduzida a cinzas. Há uma irritação profunda na espinha que despoleta ao mínimo ruído, à mais inocente risada das pessoas que estão ao teu lado e deixas de conseguir suportar a televisão ligada e deixas de ler e deixas de ouvir música. Cais, o teu cérebro adoece, não há volta a dar-lhe. Olhas lá para fora e está escuro e enevoado, olhas para o corredor e para dentro de casa, está frio. Não há volta a dar-lhe. No emprego, a tarefa que farias com rapidez e flexibilidade em Julho ou Agosto, transforma-se num pesadelo, pedes duas, três vezes para te repetirem o pedido da tarefa...contar algo torna-se cansativo, fico exausto ao fim de dois parágrafos de conversa. Mas o pior é ao fim do dia, as vozes, os ruídos, apetece tapar os ouvidos e pedir a todos que se calem. Então, reforças a medicação de anti-depressivos e deitas. No dia seguinte, um sábado, passas o dia na cama, sem forças para ver televisão, o jogo de futebol do costume, para nada. Domingo acordas à espera que o reforço da medicação faça efeito. Esgotas a cabeça e a paciência no almoço em família, tentas a habitual tentativa do passeio higiénico até à praia mas a nuca, aquela pressão de cólera e irritação com o mundo concentra-se na nuca e desce pela coluna abaixo. À noite, alguém canta "Penny Lane" aos teus ouvidos. Outra pessoa abre uma garrafa de Ice Tea e só o som e os movimentos do copo parecem querer estilharçar-te o crânio.
Segunda acorda fria, a angústia a boiar no estômago, uma tristeza outonal inexplicável a abater-se como as nuvens negras e as espumas de baba das ondas em São João. As pessoas atravessam a Avenida do Mar encolhidas. Regressas a casa. Ainda agora acordaste e estás tão cansado. Telefonas a pedir para meter uma folga em atraso e metes-te na cama. É como uma turbulência negra mental a que te habituas-te. Há-de passar. À noitinha, a cabeça mais fraca, surgem as lágrimas de pensar que não vais conseguir ir trabalhar no dia seguinte.
Faltas ao trabalho na terça-feira, experimentas vagabundear pelo Almada Forum. É um espaço envidraçado e com pessoas. Reparas nos idosos a ler o jornal junto às superfícies iluminadas. Compras Cerebrum na loja de produtos naturais.
Quarta, pegas o comboio e vais à luta. Para o trabalho. Esperas que tenha sido apenas a crise outonal do costume. Quinta praguejas de tanto nevoeiro. Sexta julgas-te recuperado porque colocaste os discos do costume na aparelhagem e ouviste The Band, Janis Joplin, Irma Thomas, Clarence Carter, Bob Dylan, Laura Cantrell, conversaste junto aos aquecedores feitos pequenas lareiras improvisadas.
Foi uma crise and "I'm Waiting For a Sunny Day". De qualquer forma, hoje uma colega chegou bronzeadíssima da Argentina e trouxe-me um cachecol do Boca Juniors. Amanhã há Braga-Benfica, things are rolling again, smiling again, chating again, that's life.