estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2005-10-27

DEMOLIÇÕES NAS MARIANAS

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Foto Pedro Vilela

À semelhança de outros bairros de barracas da Grande Lisboa, as demolições continuam no Bairro das Marianas, na Parede. Todos os que não foram inscritos no Programa Especial de Realojamento (PER) que fechou em 1993, não têm direito a ser realojados. A associação Solidariedade Imigrante contabiliza cerca de 200 famílias cujas barracas vão ser demolidas na área metropolitana.

Terça-feira, depois da entrada do Corpo de Intervenção (CI)

"Pelo menos podiam respeitar o peixe e o pão que estávamos a comer", diz Dinis Pedro Fernandes, morador do Bairro das Marianas de 43 anos. "Mandaram a comida abaixo, empurraram-nos como cães."
Celeste Gomes, 32 anos, grávida de oito meses, queixa-se de ter sido empurrada e agredida num dedo por um dos agentes do CI, que não se cansa de identificar: "Ele empurrou. Eu disse "não me empurras" e então ele apertou-me o dedo para me fazer parti-lo."
A chegada das câmaras de televisão parece ter ajudado a amenizar as coisas. "Agora que viram as televisões e que os jornalistas estão aqui, eles estão muito mais dialogantes. Vocês deviam estar é aqui sempre."
Durante a tarde, e depois de terem sido demolidas três casas, vários moradores e elementos da associação Solidariedade Imigrante sobem para cima dos telhados das barracas ainda por demolir, erguendo faixas de protesto e exasperando a polícia.
Entre os moradores que protestam, há muitas mulheres. "Eu hoje não dormi", explica Ivete Barros, 37 anos. "Eu trabalho à noite nas limpezas em Chelas. Não dormi nem comi até agora e vou trabalhar às 11h00 da noite".
O comandante do Corpo de Intervenção fala com os seus homens concentrados em frente a uma barraca em cujo tecto estão militantes empoleirados. A escavadora avança por cima de relva, lama, escombros. "Vamos embora, vamos embora!", diz o comandante. "Vamos lá". Os polícias de choque cercam a barraca. Mais moradores e activistas sobem para cima do telhado.
"Está a ouvir? Você está a ouvir? O senhor não pode estar aí! Está a ouvir? Não pode estar aí!", grita um polícia para um jovem militante. O jovem grita: "Bata, pode bater! Há bocado foi a abrir, agora que está aqui a comunicação social está mansinho!"
A escavadora aproxima-se, espera um sinal. "Queria ver se fosse a tua família, se te estavas a rir!", grita um homem para um agente do Corpo de Intervenção que abana a cabeça e ri. Por perto, um polícia à paisana, vestido de blusão e calças de ganga, empunha uma shotgun.
"Eu respeito todas as pessoas e não estou nervoso, não me digas que estou nervoso", diz um jovem guineense a um polícia à paisana, os dois em cima de um monte de escombros a assistir à cena dos militantes empoleirados em cima da barraca. "Isto mexe com toda a gente, não penses que nós temos prazer em estar aqui", explica-lhe o polícia. "Aqui não há humanidade. Tu podes dizer que a câmara não fez o seu trabalho mas a polícia não tem culpa".
Daí a pouco, o mesmo agente à paisana dirige-se ao grupo de guineenses que protestam junto à próxima barraca a demolir: "Um de vocês tem de criar uma comissão e falar bem, falar bem". Responde-lhe um jovem negro: "Peço desculpa se falo com sotaque da Guiné..."
A partir de determinada altura, aparece uma câmara da SIC. O operador de câmara instala-se em cima dos tijolos partidos e nunca mais dali sai. O comandante do corpo de intervenção observa o aparato mediático e conversa com um graduado de walkie-talkie na mão. Ambos lançam olhares rápidos para o cameraman e a sua câmara indiscreta.
Os ânimos exaltam-se quando Celeste Gomes exibe o seu bilhete de identidade português em frente do nariz do polícia que alegadamente lhe torcera o dedo. O comandante do CI parece um disco riscado: "Calma, tenham calma. A vida é dura..."
Um grupo de mulheres negras provoca o comandante do CI: "Tem casa? Eu vou dormir na sua casa!" Comenta outra: "Não, tu vais dormir para o quarto dele". O comandante faz de conta que não ouve, as horas a passarem, o sol a incidir sobre o capacete azul.
De vez em quando, o ambiente desanuvia-se e estabelece-se diálogo entre os polícias de capacete e shotguns e os moradores. "Eu não vi o meu colega torcer o dedo à mulher grávida...o senhor é casado, se tivesse a sua mulher grávida, deixava-a estar aqui?, pergunta um polícia de choque a um negro. "Ela está a reinvindicar o direito dela! Nós lá na Guiné dizemos: Tem fome, vai à procura. Ela tem fome..." responde o guineense.
Um funcionário da câmara parte à marretada a porta da barraca em cujo telhado estão os moradores e militantes com cartazes. Um polícia vestido blusão e calças de ganga entra na barraca de shotgun em punho, como nos filmes. Os homens começam a retirar os pertences. Sai uma parte de uma cama, saem uns sacos, até que se ouvem muitos gritos: "Dinheiro! Dinheiro" Ele tirou dinheiro!"
A pequena multidão de guineenses não se cala até que o funcionário em causa devolve uma nota de dez euros sob o olhar furioso dos moradores e o silêncio cúmplice dos polícias. No dia seguinte, o mesmo funcionário vai lá estar a trabalhar novamente.
A escavadora espera por uma ordem para avançar. "Não fica com medo que a gente não bate", grita de cima do telhado da barraca um homem em direcção ao funcionário que manobra a máquina.
O corpo de intervenção (CI) ainda tenta concentrar-se noutra barraca mas os militantes seguiram lá a mesma estratégia. Colocaram-se em cima do telhado. A situação prolonga-se demasiado tempo. O comandante do CI acaba por descarregar a frustração numa militante pequenina e com sotaque francófono que estava a filmar tudo com uma câmara digital. "Acabou, é o meu último aviso! Para estar aqui e filmar a senhora tem de estar identificada como jornalista!"
Às 16h45, pouco mais ou menos, o comandante lança a toalha ao chão. "Vamos embora...", diz aos seus homens. Os polícias regressam por entre a lama e os escombros às carrinhas onde deixaram os escudos. A escavadora sai do bairro vagarosamente acompanhada pelo polícia à paisana de shotgun no braço.
Os moradores guineenses gritam, batem palmas e cantam em coro um cântico em crioulo: "Ihode Há SIC na Biu!" Pergunto o que quer dizer aquilo a uma mulher sorridente. "Eh, quer dizer...cuidado, está a vir a televisão SIC!"

O DIA SEGUINTE

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Umaro Seidi, 38 anos, fotografado pelo Pedro Vilela

Quarta-feira, 9h00 da manhã


"Eles entraram aqui às 7h00, não deu tempo de reagir", conta o guineense António Ka, 35 anos. "Disseram-nos para ter calma e nós dissemos que não estávamos aqui para brigar."
O sentimento entre os moradores das barracas, alguns ainda a dormir quando chegaram as máquinas, é de derrota: "É preciso saber ganhar e saber perder. Na terça-feira ganhámos, hoje perdemos", comenta, de braços cruzados, Mussa Pedro Correia, da Comissão de Moradores. "Eles são fortes, têm mais meios. Nós somos cidadãos simples... precisamos manter-nos unidos. Há muita gente a viver aqui ainda."
Enquanto a máquina escavadora demole a barraca onde viviam os operários guineenses Samina Candumbel, 40 anos, e Umaro Seidi, 38 anos, os olhares dos moradores sãoo de desolação. Tímido, encostado a um canto, Samina vê a escavadora reduzir a escombros a habitação que moradores e activistas empoleirados no telhado tinham defendido na tarde anterior.
À sua frente, elementos do Corpo de Intervenção da PSP de shotguns ao colo mantêm os habitantes afastados."Vivia aqui há 17 anos e recenseei-me no PER. Sempre me disseram para esperar, esperar", conta Samina. "Agora estava a trabalhar no Algarve. Vim sábado, faltei estes últimos dias ao trabalho. Para onde vou agora? Volto para o Algarve, o patrão manda embora. Aqui, fiquei sem nada..."
Umaro Seidi, companheiro de barraca, aparece cerca das 10h00, vindo de uma obra próxima onde se encontra a trabalhar. Traz o boné segurado pelas mãos cheias de cal, cabelo pintalgado de tinta, as botas cobertas de cimento. "Onde é que eu vou dormir hoje?", pergunta Umaro de braços abertos sobre os tijolos partidos enquanto calcorreia os escombros da barraca 338. "Bom, vou dormir debaixo ali da ponte do caminho-de-ferro. Tem lá um buraco, vai ter de ser."

2 Comments:

  • At 8:45 da tarde, Blogger Luís said…

    Parece que vamos ter uma nova invasão armada, desta vez ao Irão. O seu presidente disse que israel devia ser riscado das nações unidas! Tony Blair já reagiu... só falta o mr bush! As ameaças estão no ar... E o irão tem bomba atómica!

    Ouvi agora e estava no seu blog.Fico à espera do seu post sobre este assunto.
    abraço

     
  • At 12:01 da tarde, Blogger Fátima said…

    Olá Nuno,aqui no Brasil estamos tão decepcionados com políticos e na verdade hoje nem se sabe o que é direita e o que é esquerda,depois que recebem nossos votos e chegam ao poder é só corrupção e o povo continua a sofrer,esquecido.
    Sobre o Bush,a notícia de hoje é a seguinte que estou enviando:

    A visita do presidente americano, George W. Bush, ao Brasil, no próximo fim de semana, incentiva movimentos de esquerda do País a programar uma série de protestos.
    O presidente da União da Juventude Socialista (UJS), Wadson Ribeiro, com apoio da UNE, da UBES, do MST, da CUT e de ONGs partidárias da esquerda, afirma que a primeira manifestação será realizada na fronteira entre o Estado de Mato Grosso de Sul e o Paraguai, país que deve receber uma base militar dos EUA.

    Os manifestantes querem chamar a atenção do público para a "influência crescente dos EUA na América do Sul", diz O Estado de S.Paulo.

    "Somos contra o modo de atuação dos EUA no mundo todo, e essa será a melhor oportunidade de expressarmos isso", afirmou o presidente da UJS, em entrevista ao jornal paulista.

    No entanto, o foco dos manifestantes será o encontro de Bush com o presidente Lula. Para eles, o Brasil não deve se render à política externa dos EUA. O presidente da UJS diz que, por isso, o protesto deve reunir cerca de 3 mil pessoas.

     

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