estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2006-04-28

WE SHALL OVERCOME

cdseeger[1]

O Furacão Katrina passou por New Jersey


O novo álbum de Bruce Springsteen recolhe temas tradicionais da música popular norte-americana e transforma-os numa festa à New Orleans. Dir-se-ia que o Furacão Katrina passou por New Jersey.


Com “We Shall Overcome-The Seeger Sessions”, Bruce Springsteen consegue transformar numa festa exultante aquilo que poderia ser apenas mais um excelente mas melancólico disco acústico. Os temas do álbum já eram conhecidos na versão despida e folk de Pete Seeger mas o que Springsteen faz é muito mais do que as reproduzir de novo em jeito folk. Ele junta um grupo de músicos brilhantes e faz de cada tema tradicional um pedaço de uma festa. Chamar apenas disco folk a “We Shall Overcome” é ignorar a revolução que Springsteen produz ao reinventar e repintar cada canção. Old Dan Tucker, por exemplo, começa com um banjo muito bluegrass mas a entrada da banda em acção introduz-nos imediatamente a transformação emprendida pelo Boss. O cantar de Bruce é rasgado e nasalado e portanto country/bluegrass/ folk mas o acompanhamento lembra uma jam session em New Orleans ou as trompetes dos Dexy Midnight Runners. A batida é mantida pelo contrabaixo mas aquelas trompetes mariachi inflamam tudo juntamente com o coro. É como se estivéssemos num bar em madeira algures na Irlanda e todos a cantar e a bater com o pé no soalho.
Jesse James abre com a guitarra acústica e um cantar à Christy Moore. Há muito de Irlanda e de irlandês na forma como é iniciado o tema mas mais uma vez o Boss dá a volta ao texto, desta vez com a introdução dos acordeons que tanto nos remetem para o cajun da Louisianna como o tejano e conjunto da fronteira com o México. O acordeon parece tocado pelo grande mestre do tex-mex Flaco Jimenez e as trompetes parecem saídas de New Orleans. Brilhante a forma como consegue, na festa final em que Jesse James se transforma, conciliar instrumentos que dir-se-iam inconciliáveis: banjo, trompetes, acordeon.
Mrs McGrath abre uma janela sobre a Irlanda, sobretudo mal soam os violinos. O facto de se tratar de uma velha balada anti-guerra será interpretado para dizer que se trata de uma mensagem politizada. Bruce Springsteen introduz-lhe dramatismo utilizando o piano.
O Mary Don’ You Weep começa e termina com um violino cigano maravilhoso e um trombone que dir-se-ia saído de New Orleans. Mais uma vez, Bruce reinventa. Aquele que era um espiritual negro cantado nas igrejas do sul passa a uma festa produzida por uma autêntica brass band. Cheira a Preservation Hall, a cantina texana e que dizer do piano final? Não lembra Dr. John?
John Henry arranca em jeito e ritmo bluegrass e Bruce Springsteen canta-a com uma força quase espiritual. “I’m gonna die with a hammer in my band, Lord, Lord…” O banjo é uma delícia bluegrass, o acordeon um sonho tejano. Bruce canta e rasga as cordas como um doido: “You can hear John Henry’s hammer ring…”
Em Erie Canal, o Boss escolheu a princípio uma aproximação muito melodiosa e melancólica. Mais uma vez, o que dizer dos arranjos? Dá impressão que o homem foi atingido pelo Furacão Katrina tão influente é em determinados momentos o som de New Orleans cozinhado com o banjo bluegrass.
Em Jacob’s Ladder, Bruce e a banda não nos dão tempo de respirar. Mais um gospel vestido ao jeito dessa grande cidade que será New Orleans. Está lá o piano endiabrado, o trombone, o coro alegre, o acordeon cajun. Tudo a dançar de guarda-sol na mão ao sol da Louisianna ou do Mississipi.
My Oklahoma home é um hino folk dedicado aos okies perdidos na “dust bowl” dos anos 30 e a todos os filhos da Grande Depressão. O acompanhamento do acordeon ou do baixo é mais light, não fosse esta uma canção de combate, uma canção de desespero, pobreza e vazio: “Oh my Oklahoma home is blown away, yeah, it’s up there in the sky, in that dust cloud over n’by, my Oklahoma home is in the sky”.
Eyes On The Prize é mais um hino e Bruce Springsteen dá-lhe a solenidade que ele merece, o coro soprando como um grupo de anjos e os instrumentos num crescendo contido que acaba iluminado pelo violino e pelo acordeon. O final é um funeral festivo em… New Orleans, pois claro. Shenandoah é pintada em tons sombrios. Ouçam como o piano e o violino a respeitam e o coro acompanha o Boss no que parece missa no topo dos Apalaches. Triste, sombria, romântica, Shenandoah é um dos momentos simultaneamente mais pausados e bonitos do disco, pinceladas de piano aqui, acordeon céltico acolá.
Pay Me My Money Down termina aquele que tinha sido uma intermezzo de acalmia e acelera num ritmo cajun contagiante. Parece que estamos em Opelousas, Louisianna ou em Laredo, Texas numa dance hall e que uns cajuns e chicanos convidaram uns amigos das montanhas do Kentucky para festejar.
A versão de We Shall Overcome era de todas a mais arriscada por se tratar da canção de protesto mais famosa de sempre. Bruce Springsteen dá-lhe uma roupa entre o folk e o hino espiritual, enfatizando o poder das vozes e da mensagem.
Froggie Went A Courtin’ é o que poderíamos chamar de bluegrass progressivo ou bluegrass moderno. Começa como se estivéssemos numa cabana dos Apalaches nos anos 50 mas avança de forma muito inteligente para a introdução faseada de instrumentos que não pertencem à área da country ou do bluegrass como o acordeão. Juntamente com Old Dan Tucker é, apesar das inovações- ouça-se aquela batida à White Stripes- a canção mais bluegrass do álbum.
Magnífico. Obrigado, Bruce.

3 Comments:

  • At 10:33 da tarde, Blogger anonymous said…

    Excelente texto para um excelente disco.
    E muito obrigado pela tuas palavras, no epílogo d'O Vilacondense.
    Dupont

     
  • At 10:34 da tarde, Blogger anonymous said…

    Excelente texto para um excelente disco.
    E muito obrigado pela tuas palavras, no epílogo d'O Vilacondense.
    Dupont

     
  • At 3:08 da tarde, Blogger Fátima said…

    VERDADEIRAMENTE UM GRANDE ALBUM!!!!
    COMO VAI NUNO?
    ABRAÇOS DO BRASIL!
    MARIA DE FÁTIMA

     

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