estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2006-06-03

FADO A BORDO

Desde há cerca de quatro anos que por ocasião das Festas Populares, mês de Junho é mês de fado no eléctrico 28, às quintas e aos domingos, do Martim Moniz aos Prazeres e dos Prazeres ao Martim Moniz. Fadistas, músicos e aficcionados confraternizam num ambiente castiço e bairrista que chega a ser delirante. "Lindo!", gritam os passageiros, "é lindo!

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São quase 18h00 de quinta-feira, dia 1 e há duas mulheres que esperam nervosamente há quase uma hora na paragem junto ao cemitério dos Prazeres que chegue o eléctrico 28 que traz fadistas a bordo. Só um dos vários eléctricos da carreira carrega consigo a magia e a alegria do fado e as aficionadas aguardam sem evidenciar sinal de desalento ."Nunca faltamos", explica mais tarde Maria Teresa Rodrigues, empregada doméstica, "eu e as minhas amigas nunca faltamos, faça chuva ou faça sol. Os meus patrões que me desculpem, às quintas é dia de fado no eléctrico e ao domingo o nosso passeio é este".
No ano passado, Maria Teresa, a amiga Anabela Gomes Silva e Teresa, conhecida carinhosamente como a "Baixinha", não falharam um dia. "Para quem adora o fado, como nós, isto é lindo. Vamos vendo a cidade e ouvindo o fado, lindo".
Para os músicos, é uma experiência. "No ano passado", conta o tocador de viola Carlos Carvalho, " eu e o Gentil Ribeiro (guitarra) nem nos ouvíamos um ao outro e quase não nos víamos. Era por instinto".
José Beja, o homem que a câmara municipal de Lisboa convidou para coordenar mais uma edição do Fado no Eléctrico 28, explica o fenómeno: "Já que as rádios e as televisões não têm tempo para passar esta música, trazemos o fado até à população. Isto é feito para os populares e com qualidade. Está a ver a Lola Diniz ali sentada? Fora daqui, só a ouvem no Café Luso!"
Até ao dia 25 e para que os amantes do fado e interessados o saibam, qualidade é coisa que não falta na lista de 65 fadistas escolhida criteriosamente por José Beja. "Vamos cá ter, por exemplo, a primeira vencedora da Grande Noite do Fado, em 1953, Esmeralda Amoedo e a última vencedora, Raquel Peter".
A partida dos Prazeres, cerca das 18h00 de quinta-feira, não podia ser mais caótica. Alguns fadistas trouxeram amigos e familiares e todos querem assegurar um lugar a bordo. Em breve, o 28 parece uma taberna castiça de Alfama. "Primeiro os coxos e os moídos!", grita uma mulher. Uma outra passa sacos pela janela e tenta marcar lugares. "Oh minha senhora, não pode haver lugares marcados. Trouxe o seu neto, já agora traga a sua família toda!", grita uma. Uma das mulheres que marcou o lugar está nervosa. "Oh mulher, bebe água! Estás a dar confiança a mais!",diz outra.
A confusão está instalada no 28. Cheio como um ovo e aquecido pelo sol de fim de tarde, o eléctrico carrega estudantes, viajantes ocasionais, músicos, fadistas e respectiva trupe de amigos e familiares, numa amálgama que leva tempo a sossegar. Entre os solavancos e a trepidação, José Beja abre os braços e procura fazer-se ouvir: “Atenção, meus senhores, muito boas vindas ao fado no eléctrico. Convosco vai ficar a voz de Augusto Robalo!”.
O anúncio é saudado por fortes aplausos no eléctrico apinhado. Duas crianças já viajam em cima uma da outra. Um jovem de origem africana, boné e sapatilhas largas, espalmado entre outros passageiros, sorri e aplaude.
“Tenho o meu corpo cansado de viver na solidão”, canta Augusto, olhos fechados, óculos pretos presos ao cabelo encaracolado. “Sou companheiro da noite, faço dela a minha vida...”, continua o fadista, num soluço sofrido. O 28 já desce em direcção à Estrela, conquistado pelo fado, quando Fernanda Proença, de vestido preto e flor lilás ao peito, segura a mão esquerda num parapeito de madeira e outra num varão e desabafa: “Ao fim de tantos anos de ser tua...”
Uma nova discussão rebenta lá à frente — “é que eu fui operada à coluna!” —, mas quem se importa? Tudo isto é fado. Fernanda sobe para cima de um banco para que a vejam melhor e canta: “Que linda és Lisboa dos cabarets!”. Os fãs rebentam em coro no refrão: “Táxi! Táxi!”. Em São Bento alguém grita “Olha o Sócrates ali à janela!”.
Enquanto o eléctrico pára no tráfego, num cenário de lojas de velharias e cafés de bairro, a fadista seguinte, Fernanda Lemos, ergue o pescoço, os lábios como que a beijar o ar que respira: “Foi de saudades quem nega ou então devo estar cega de tanto esperar por ti!”. O 28 rebenta em palmas e incentivos: “Lindo! Muito bem!”.
Por vezes, o som estridente do rolar do eléctrico nos carris abafa a voz de quem canta. Alguém grita: "Ei, abra a porta se faz favor!" Uma mulher explica ao telemóvel: "Estou aqui no eléctrico a ouvir fado!" Na Calçada do Combro, os passageiros viajam encolhidos e comprimidos mas felizes, cantando a uma só voz. “Laralalalala... nananananana...”, o 28 transformado num pedaço da Lisboa antiga das colinas. Os fadistas riem ,convivem entre si. "Uma salva de palmas para os músicos!", pede José Beja.
"Formamos todos uma comunidade", explica-me entre os balanços e solavancos da subida por Alfama acima, o fadista João Ponces. "Vimos aqui por prazer. Apanhamos um ano que estava a chover, viemos ao final do dia, as pessoas entravam com os sacos das compras molhados...é sempre divertido!"
Fernanda Lemos, que canta com ele na "Esquina de Alfama" e na "Tasca do Careca", no Saldanha, pede para se sentar no nosso lugar e explica: "Nem a voz sai como deve ser com tanto balanço mas é uma alegria!"
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"Oh filha, tu não me digas isso..."

O 28 passa por paragens repletas de turistas que ficam encantados com o que vêem e ouvem mas dificilmente conseguirão um lugar. Fernando Gomes toca a viola há quase duas horas. Traz os olhos vidrados de contentamento e não pára. "Isto não cansa e é diferente", explica sorridente Fernando, que toca com Gonçalo da Câmara Pereira, Luísa Bastos e no "Alfama do Fado".
Em Alfama, entre ruelas e travessas, o 28 ganha finalmente alguma tranquilidade e entram finalmente turistas. "Tive tanta sorte, esta é a minha última noite em Lisboa, isto é fantástico!", comenta uma norte-americana com um guia da cidade na mão.
Beja não cabe em si de felicidade: "O público gostava que esta iniciativa fosse mais vezes. Está a ver ali aquela paragem?", pergunta já no Martim Moniz. "Falta meia hora para o próximo eléctrico do fado e já ali estão aquelas pessoas todas à espera..."

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