estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2005-03-31

Vai deixar-nos trabalhar, está bem?

"Uma mulher morta à facada hoje de madrugada aqui na avenida? Não sei de nada", diz o empregado de mesa. "Pergunte aqui ao lado". Pergunto ao empregado do talho. "À uma da manhã? A essa hora está tudo fechado. Eu não ouvi falar de nada".
Na esquadra da PSP de Chelas, o agente de serviço recosta-se na cadeira e sorri: "Foi aqui, foi. Mas só agora é que vocês vêm? Olhe que aqui em Chelas acontece muita coisa e não vos tenho visto por aqui". Peço para falar com o comandante mas sem sucesso. "Já sabem como são as normas, tem de pedir informações às relações públicas do comando geral". Explico que as relações públicas pouco adiantaram sobre o esfaqueamento. "Ah, quer o número da porta? Não lho posso dar..." Antes de saír ainda lhe suplico uma pista: "Não me pode dar só uma pista?" Responde: "Vá sempre em frente até lá abaixo, à zona demarcada...", diz a sorrir.
A zona demarcada é a Zona J de Chelas. Pelo caminho, encontro um reporter fotográfico e uma colega jornalista, ambos desorientados: "Dizem que foi ali ao pé daquele candeeiro, que havia sangue no chão, não 'tá lá nada". Farejo os postes dos candeeiros feito Sherlock Holmes de trazer por casa. Nem uma pinta de sangue. Entro no restaurante atascado mais próximo, já na Zona J. Uma mulher jovem serve um copo de branco, ri-se e grita: "Oh Paulo, ouviste falar nalgum esfaqueamento em Chelas? Vê lá tu, um esfaqueamento em Chelas! Não, não sabemos de nada!"
Regresso abatido pela avenida. De repente, vejo parar dois carros de onde saem vários homens. Um traz uma máquina fotográfica ao tiracolo. Outros calçam botas de cano alto. Um homem alto e com cara de poucos amigos coloca uma placa amarela com o número 1 junto ao passeio. Depois, vai até ao caniçal próximo e coloca a placa amarela com o número 2. "Vocês são da Polícia Judiciária?", pergunto-lhe. "Somos. E você? Jornalista? Vai deixar-nos trabalhar, está bem?"

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