estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2005-09-06

No tempo da PIDE

Segunda-feira, dia 5 de Setembro. Santana Lopes só é presidente da câmara até ao fim da semana. É tempo de iniciar a maratona de 27 inaugurações, entre equipamentos que já estavam prontos há muito e outros que só abrirão em Outubro.
“Se eu vou inaugurar uma estrutura em funcionamento, criticam. Se inauguro antes de estar a funcionar, criticam também. Sou preso por ter cão e preso por não ter”, desabafa.
No Parque Infantil do Alvito, onde descerra uma lápide relativa à segunda fase da intervenção, pronta há dois meses, é questionado sobre se o que ali está a fazer é ou não uma inauguração. “Esta é uma obra feita por nós e que está a funcionar há três semanas. Estamos a mostrar a obra feita por nós”, explica.
Na Ajuda, onde vai inaugurar as novas instalações do Mercado da Ajuda — que só entrarão em funcionamento em Outubro —, vários moradores, entre os quais Elisabete Almeida, moradora no número 7 da Travessa da Boa Hora, queixam-se ao autarca da obra do mercado lhes ter rachado as casas. “Tenho rachas em casa por causa da obra”, diz-lhe Elisabete. “Minha senhora, eu também tenho rachas em casa por causa de uma obra”, responde Santana.
Dentro do novo mercado, várias pessoas protestam pelo facto do equipamento ir permanecer fechado depois de inaugurado. “Isto é lamentável, é narcisismo puro, não é inauguração não é nada!”, grita um homem. Quando Santana Lopes descerra a lápide e discursa, é obrigado a elevar a voz para se fazer ouvir devido aos protestos de “isto é só demagogia!” e “isto é uma palhaçada!”.
O segurança de Santana dirige-se a um dos homens, de cima dos seus largos ombros, do fato preto, dos sapatos engraxados a rigor, do cabelo lambido pelo gel, dos olhos metálicos de mau da fita: “Ouça, diga ao seu amigo que tem de falar mais baixinho…” A resposta não se faz esperar: “Isso era no tempo da PIDE, no tempo da PIDE é que a gente não podia falar!”

1 Comments:

  • At 1:14 da tarde, Blogger Bárbara Vale-Frias said…

    Da PIDE pouco posso falar pois tenho apenas os anos da Revolução. Mas sei o quanto é importante podermos dizer o que pensamos e em voz alta.

    De qualquer modo, ser livre não me parece que seja igual a ser bobo da corte, ou seja, a dizer tudo o que vem à cabeça só porque não se é punido por isso.

    Na minha modesta opinião, esse senhor, que tem razão quando diz ter direito à palavra, devia também aprender algumas regras de saber-estar.

     

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