estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2005-12-09

Na corda bamba

Já tinha caído a noite, eram umas seis da tarde e uma mole de curiosos espetava as vistas lá para cima, para o topo do edifício Monumental. Do lado direito das luzes de neon vermelho da Unisys, avistavam-se umas pernas bamboleantes. "Como é que ele consegue estar ali há tanto tempo?", perguntava uma mulher. "Se ele se quisesse matar, já se tinha atirado", sentenciava um homem. Uma rapaziada sorridente apreciava a acção de mãos nos bolsos. "O que ele quer", explicava um polícia de trânsito feito psicólogo, "é precisamente que as pessoas estejam aqui a dar-lhe atenção. Se forem embora, é melhor para ele e para quem está a negociar com ele". Uma idosa pendurada numas muletas perguntou: "O que é que ele tem? Problemas na vida?" O polícia de trânsito cofiou o bigode e virou as costas. "Bom", calculou alguém, "para se matar devia ter escolhido o lado da Fontes Pereira de Melo. Ali, cai no terraço, são três andares, não sei..." Lá em baixo, no Saldanha, as viaturas desciam para a avenida no frenesim das sextas-feiras, entre buzinadelas e travagens nos semáforos. Lá em cima, duas pernas continuaram a agitar-se no tecto escuro da cidade, deambulando angústias, gritando por ajuda ou atenção.

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