estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2006-05-15

EU VI O BOSS EM PARIS

CONCERTO DO BOSS EM BERCY

bilhete

1- Antes do concerto

Os pés, sobretudo as pernas, já me doíam e fraquejavam. Eram quase 20h30 no Pavilhão de Bercy, em Paris, na passada quarta-feira e não me sentava desde as quatro da tarde. Tinhamos chegado ao aeroporto Charles de Gaulle no voo da Easy Jet da manhã, comido um hamburger no Mac Donalds mais próximo do hotel e arrancado a pé desde Porte de Montreuill, a norte, até Bercy, a sul, eu e o meu amigo e palmilhador de quilómetros António Matos. Estavamos em Paris para ver Bruce Springsteen mas porque não percorrer as ruas quase magrebinas que desaguam à Praça da Nation e mais tarde à Gare de Lyon e a Bercy?
na fila
Duas horas de caminhada a pé, às 18h00 estavamos junto ao pavilhão. Em frente à porta que dava acesso ao palco, já serpenteava uma fila de aficcionados. Comemos à pressa um cachorro e entrámos para a fila onde se ouvia francês mas também espanhol e inglês. Quando entrámos no pavilhão, já grande parte da zona em frente a um palco repleto de instrumentos estava ocupado. Os primeiros na fila tinham tido direito a um espaço entre o palco e uma grade. Consegui ficar junto à vedação. Tinha o palco a uns dez metros e algumas cabeças de distância. Ao meu lado, tive a companhia, por exemplo, de um médico holandês que me contou já ter assistido a 82 concertos do Boss.
As pernas doíam. Deu tempo para ir assistindo ao colorir e ocupar dos assentos nas bancadas. A música ambiente era muito country e bluegrass o que me ajudou particularmente a relaxar e bater com o pé direito numa extensão da grade.

2- O concerto

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Foto Renato Silva

Quando as luzes se fecharam e a banda de 17 elementos atacou em forte registo bluegrass "John Henry", estava suado e cansado mas feliz.
O arranque da banda foi forte e cajun quanto baste, o Boss a cantar como se estivesse num baile da Louisianna e a dar espaço aos solos de violino e de acordeon sob as palmas do pavilhão. O Boss virava-se para trás, para a banda e incitava: "C'mon boys!" As luzes incidiram sob o acordeonista e depois sobre o tocador de banjo. A festa era vibrante e grandiosa. Paris tem um público difícil mas quem melhor que o Boss para conquistar Paris? Quando todos pensavam que ía terminar a canção, a banda evoluiu para um final irlandês exaltante.
O público estava conquistado. Ao meu lado muita gente gritava "Bruuuuuce" quando o Boss anunciou: "Mes amis, on va se amuser ce soir". Seguiu-se a grandiosidade do som de New Orleans com "Mary Don't You Weep". Eu tinha um gajo atrás de mim que cantava a plenos pulmões e total desafino "Oh Mary don't you weep no more!" Paciência, fazia parte do concerto.
Naquela altura, a zona onde eu estava parecia um sauna dançante. Aquelas trompetes, aquele piano levaram-me até longe. Na minha cabeça passaram a Bourbon Street, o Katrina, o bafo quente e húmido da "Big Easy" em Maio.
Confesso que não achei particularmente brilhante a versão jazzy de "Johnny 99". Os milhares que enchiam Bercy começaram a cantar o refrão de "Old Dan Tucker", um tema que a maioria conheceu a 25 de Abril, quando disco saíu, mal ouviram os primeiros acordes. A festa retomou o rumo, toda a gente a cantar o refrão e só amorneceu um bocadinho na lindíssima "Eyes on the prize", um dos primeiros grandes momentos da noite, pleno de Dixieland jazz mas de gospel também.
Foi quando a plateia enlouqueceu com um magnífico solo bluegrass de banjo à frente do palco antes de Bruce Springsteen gritar "C'mon Jesse James!" A banda arrancou a todo vapor e a festa foi total, o violino endiabrado, toda a gente a bater palmas. A minha t-shirt colava-se ao corpo quando o acordeonista solou como só na Louisianna.
O Boss surprendeu depois Paris com uma versão soul de "Cadillac Ranch" e encantou com outro momento poderoso, "Erie Canal". A voz do Boss ecoava pelo pavilhão, por vezes, apenas acompanhado do acordeon. Como em quase todos os temas, Bruce deixou espaço para a banda enquanto cirandava pelo palco com uma alegria e uma jovialidade impressionantes. Se "Erie Canal" encantara, "My Oklahoma home", um tema sobre a grande depressão dos anos 30 juntou todos a gritar "It blowed away!" como se estivessemos num pub e não numa sala para 18 mil pessoas. O público adorou e o Boss gostou: "Trés bien, magnifique!"
A plateia estava quente, suada e feliz quando o Boss resolveu presentear Bercy com uma versão maravilhosa e céltica de "If I shoul fall behind". Bruce e Patti Scialfa a jurar amor eterno enquanto a sala iniciava, em embalo, um coro gigantesco "lalalalalalalala", a Irlanda ali tão perto. Quando a música acabou, Bruce Springsteen ficou, maravilhado, a ouvir o público a cantar.
Bercy voltou a transformar-se numa sala de baile irlandesa com Mrs Mcgrath e incendiou quando em francês, o Boss anunciou "How can a poor man can stand such times and live", um tema dedicado a New Orleans e acusou Bush de corromper a FEMA, a agência federal encarregue de socorrer a cidade durante o Katrina. A batida quase marcial e o cantar arrastado e sofrido de Bruce apoiado na força grandiosa dos metais, transformou o tema num hino, um protesto magnífico. A pedal steel reinou sobre Bercy seguida das trompetes, num vulcão soul/gospel arrasador.
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Por essa altura, a audiência, sobretudo a suada e entusiasmada plateia, começou a perceber que era uma espécie de furacão Katrina que estava a passar por ali. A apoteose chegou com "Jacobs Ladder" e aquele ritmo creolo e enlouquecedor sempre em crescendo. Às tantas, toda a gente cantava "We are climbing" como se estivessemos todos numa igreja do sul dos Estados Unidos, as mãos a abanar.
As coisas voltaram a ganhar força de protesto quando Bruce anunciou "We Shall overcome" e lembrou que a canção de protesto está mais actual do que nunca. "Foi cantada nas últimas manifestações de emigrantes nos Estados Unidos", lembrou. Bercy ficou de boca aberta a ouvir o hino. Bercy como um templo, uma igreja, a escutar Boss, o pregador e o coro de apóstolos: "We Shall live in peace one day". Foi daqueles momentos de encher a alma, como se o Boss quisesse dizer: Isto é uma festa mas uma festa com um significado e mensagem.
Ninguém esperava também o boogie em que o homem transformou "Open all night". Delirante. De chorar por mais. O swing vindo da pedal steel, então, foi qualquer coisa... As coisas acabaram em delírio colectivo ali por baixo, tudo a repetir "All night". Bercy estava de joelhos e entrou em convulsão com a festa cajun de "Pay me my money down". Mais uma vez, tive de levar com o gajo atrás de mim a cantar com sotaque francês "Pay me, pay me my money down..." A festa foi cajun, graças mais uma vez ao acordeon. A alegria e energia em palco de Springsteen era qualquer coisa.
As milhares de pessoas ficaram a cantar durante minutos, em coro, "pay me, pay me my money down" apenas acompanhadas pelo trombone e depois pela bateria. Foi um momento mais próximo de concerto de estádio. O Boss saíu do palco e temi que o concerto tivesse acabado. Afinal, haveria de regressar, mais feliz que nunca: "Pretty good!"
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A New Orleans haveria de voltar em "My City of ruins", toda a gente de mãos abertas espetadas e a repetir "C'mon rise up!" como numa cerimónia religiosa. "C'mon, c'mon" cantava com uma energia inesgotável Bruce, feito pregador gospel, soul healer. Foi por essa altura que as bancadas aqueceram, as tradicionalmente moderadas bancadas de Paris.
A festa ía em mar aberto quando o Boss convidou a bordo os seus amigos Elliot Murphy E Garland Jefreys. Puseram-se todos a cantar uma canção de embalar, "Buffalo Gals" e a banda a ir atrás, numa espécie de grande fim de bailarico.
Já não esperava mais nada quando a banda entrou numa frenética sessão de zydeco à Beau Jocque, com washboard e tudo. Era "You can look" que sofrera uma revolução, passara pelos bayous de Lafayette, sofrera um cozinhado rock em Asbury Park e voltara a aterrar em New Orleans. Que era feito das minhas dores nas pernas? Suor, camisa colada ao corpo? Tinha a minha alma presa aquele palco.
Foi precisamente quando Bercy já estava de queixo caído e em brasa que o Boss se aproximou do microfone, anunciou que ía cantar uma canção para os soldados de todo o mundo e começou a cantar sózinho "Bring Them home". Foi emocionante em Paris, imagino como não será nos Estados Unidos ou nos quarteis norte-americanos no Iraque: "If you love this land of the free, bring them home, bring them back from overseas". Arrepiante.
E tudo terminaria com "When The Saints Go Marching In", o público a cantar baixinho e respeitosamente, a acompanhar Bruce como uma congregação. No final, os músicos agradeceram à boca de cena, ainda pensei que houvesse um bónus, o Boss despediu-se com um "on vous aime Paris". Acenderam-se as luzes e havia felicidade nos rostos das pessoas. Tive de lutar braviamente para conseguir comprar uma t-shirt da tournée, uma multidão a acotovelar-se para conseguir uma recordação. Merci Bruce, vive Paris!

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