estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2004-05-05

Célia, a menina de programa

“Cê tem 50 centavos?” A parede de som das colunas pegadas umas às outras debitando o som quase hipnótico do reggae, quase não me deixa ouvir o que aquela figura simpática franzina, morena, cabelo frizado e aloirado artificialmente , vestida com um top vermelho me quer dizer. Encostado ao balcão daquele clube ao ar livre, bem em frente à Praia da Ponta D’ Areia, São Luís do Maranhão, mergulhado numa multidão de negros e mulatos que abanam e agitam o corpo para a esquerda e para a direita, a um ritmo cadenciado, volto-me e tiro 50 centavos do bolso. “E...ehhh, se você quiser posso ficar com você”. O som está tão alto que mal entendo o que aquele ser pequenino e frágil, aparentando 15 ou 16 anos, me quer dizer. “Cê quer que eu fique com você?”
Não respondo. A jovem pousa a mão na anca, deixa ver os dentes brancos e diz: “Me paga uma cerveja, vai?”
Ao fim de alguns copos que aquecem ao calor húmido e tropical de São Luís, a menina impacienta-se. “Cê tá pensando que eu sou uma vagabunda? Não sou vagabunda, não, eu trabalho lá no bairro do Filipinho...” Então o que é que ela quer? “Quero te fazer bem, te dar um carinho, te mostrar São Luís, vou mostrar a cidade para você, te levo a minha casa...”
A conversa começa a prolongar-se. A menina agarra-me o rosto com as ambas as mãos e dá-me um beijo tão abrupto, extemporâneo e artificial que dou um passo para trás. “Que é que é isso? Você é “veado”? Ah não, você é “veado”! Dá uns passos para trás e depois, empurra-me: “Cê é “veado, não é”?
Digo que não mas não estou interessado. “Porquê?”, pergunta de mão na anca. Porque ela quer dinheiro. Se é esse o problema, posso dar-lhe dinheiro. De repente, chega um rapaz mulato que pretende falar com ela. É concerteza o “cafetão” (chulo). “Esse aí é meu sobrinho, viu, sei o que você está pensando mas ele não é meu namorado”.
Pergunto-lhe a idade. “Tenho 22 e me chamo de Célia”. Não acredito. “Tenho 22, cê não acredita?” Ofereço-me para comprar mais uma cerveja ou pagar-lhe o moto-taxi de volta para casa. Não, nunca irei para casa dela. “Cê ía conhecer minha família, ia ser bom”. Já de frente para as ondas mornas da Praia da Ponta D’Areia, compro-lhe umas uvas, dou-lhe dinheiro para ela poder regressar a casa e despeço-me. “Tem a certeza que não quer? Eu trago camisinha, vou com você para onde você está. Tem a certeza?” Mais um trago de cerveja e quero ir embora. “Olha só”, diz Célia, “olha só”. Abre os calções de ganga e mostra a penugem escura. “Tá vendo a “bucetinha” que você está perdendo?” Adeus Célia. Vejo-a tomar o capacete de um moto-taxista e desaparecer na noite na parte de trás do moto-taxi, por entre o ambiente febril do pós-festa de reggae.