estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2004-09-28

O dia em que o homem das bogas morreu

Fim de tarde na Casa de Pasto “Maria do Céu”, Redinha, Pombal. Camionistas solitários sentam em mesas de madeira, comem bifanas, pedem queijo e azeitonas, à espera do jogo do Benfica na televisão. Ao balcão, aglomeram-se os homens das obras, as roupas salpicadas de tinta ou résteas de cimento, em frente à vitrine de vidro e aos pasteis de bacalhau, ao polvo, às sardinhas, à mãozinha de vaca, aos chouriços. Tentam todos conversar com o único elemento feminino da casa, uma jovem de faces rosadas, camisa branca, saia preta, avental branco, toda ela sorrisos e paciência: “Que é? Já vai!” No meio, deambulando de um lado para o outro, anda um homem de uns 40 anos, em evidente estado de alcoolismo, mostrando a todos as bogas que pescou ali perto, de saco de plástico na mão, abraçando velhos conhecidos ao balcão, pedindo um copo de branco e daí a pouco mais um e mais um. Fica-nos na retina as faces rosadas, a alegria do alcool, as piruetas de alcoolizado.
Uma hora mais tarde, a cinco, dez quilómetros da Redinha, já noite escura, um homem está estendido na valeta como um cão. A parte esquerda do rosto ensopadada numa poça de sangue, imersa no buraco. As calças violentamente arrancadas até baixo, a perna esquerda agora um pedaço inerte de carne morta, inútil, apenas riscos de alcatrão sulcando a superfície pálida. As luzes dos carros saltam a lomba lá em cima, iluminam a noite com o vagalhão dos farois e riscam-na em direcção ao sul, indiferentes ao pequeno grupo de náufragos da Nacional Nº1 que perde o seu tempo junto ao corpo. Há uma mulher entre os 40, 45 anos, a orelha colada a um telemóvel. Há outra que grita: “filho não vás aí, Rosa, tira o menino daí!” Um idoso curva-se parcimonioso sobre o cadáver e conclui: ele ainda não está morto!” O dono do veículo que atropelou o anónimo da valeta tenta manter-se afastado do grupo de mirones que sacodem o frio como podem, as mãos entre os bolsos.
“Tinha que vir a muita velocidade”, diz alguém. Uma motorizada jaz muitos metros adiante, no matagal. “Eu não pude fazer nada”, justifica desolado o dono do veículo. “Ele aparece-me a atravessar a estrada de motorizada na mão, nem dei por ele”, explica. E o airbag, lembra a mulher. “É verdade, o airbag abriu-se, só consegui parar lá mais à frente”. De repente, reparamos num anónimo saco de plástico a poucos metros do corpo. Há peixes espalhados em redor. Meus Deus, as bogas, é o homem das bogas, percebemos então. “Foi o meu primeiro patrão”, explicará mais tarde um rapaz das redondezas, “ele não tinha mais de 38 anos...e agora, quem vai dizer à mulher e aos filhos? Tantas vezes que eu o avisei para não beber assim...” Daí a pouco, um bombeiro de Pombal apalpará a carótida do homem das bogas. “Traz o pano”, pede ao colega. Na retina, ficar-nos-á para sempre a imagem do homem, às piruetas, na alegria do alcool, na casa de pasto “Maria do Céu”.

1 Comments:

  • At 11:35 da tarde, Blogger mghorta said…

    É uma tristeza, mas a realidade é mais nua e crua que o relato bem exposto.
    Mas também é pena o modo de como abri esta página para tentar ler algo mais acolhedor e mais emocionante, e logo fico com a lembrança de uma casa em que eu tenho muito carinho, pelo dono actual e pela dona, sua mãe a Maria do Céu, em que só deu tristeza...

    Parabéns pela sua página.

     

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