estradas perdidas

Atrás de casa, encoberta por tufos de erva daninha, silvas e bidões abandonados, o comboio de janelas iluminadas vinha das Quintãs e silvou depois do túnel em curva, em direcção a Aveiro. Ali ao lado há uma estrada, a minha primeira estrada. Mulheres e homens cruzam-na impelindo teimosamente os pedais das bicicletas. Junto à vitrine de um pronto-a-vestir lê-se "Modas Katita". De uma taberna, saem dois homens que se dirigem para duas Famel-Zundapp. Estrada perdida.

2004-09-28

O dia em que o homem das bogas morreu

Fim de tarde na Casa de Pasto “Maria do Céu”, Redinha, Pombal. Camionistas solitários sentam em mesas de madeira, comem bifanas, pedem queijo e azeitonas, à espera do jogo do Benfica na televisão. Ao balcão, aglomeram-se os homens das obras, as roupas salpicadas de tinta ou résteas de cimento, em frente à vitrine de vidro e aos pasteis de bacalhau, ao polvo, às sardinhas, à mãozinha de vaca, aos chouriços. Tentam todos conversar com o único elemento feminino da casa, uma jovem de faces rosadas, camisa branca, saia preta, avental branco, toda ela sorrisos e paciência: “Que é? Já vai!” No meio, deambulando de um lado para o outro, anda um homem de uns 40 anos, em evidente estado de alcoolismo, mostrando a todos as bogas que pescou ali perto, de saco de plástico na mão, abraçando velhos conhecidos ao balcão, pedindo um copo de branco e daí a pouco mais um e mais um. Fica-nos na retina as faces rosadas, a alegria do alcool, as piruetas de alcoolizado.
Uma hora mais tarde, a cinco, dez quilómetros da Redinha, já noite escura, um homem está estendido na valeta como um cão. A parte esquerda do rosto ensopadada numa poça de sangue, imersa no buraco. As calças violentamente arrancadas até baixo, a perna esquerda agora um pedaço inerte de carne morta, inútil, apenas riscos de alcatrão sulcando a superfície pálida. As luzes dos carros saltam a lomba lá em cima, iluminam a noite com o vagalhão dos farois e riscam-na em direcção ao sul, indiferentes ao pequeno grupo de náufragos da Nacional Nº1 que perde o seu tempo junto ao corpo. Há uma mulher entre os 40, 45 anos, a orelha colada a um telemóvel. Há outra que grita: “filho não vás aí, Rosa, tira o menino daí!” Um idoso curva-se parcimonioso sobre o cadáver e conclui: ele ainda não está morto!” O dono do veículo que atropelou o anónimo da valeta tenta manter-se afastado do grupo de mirones que sacodem o frio como podem, as mãos entre os bolsos.
“Tinha que vir a muita velocidade”, diz alguém. Uma motorizada jaz muitos metros adiante, no matagal. “Eu não pude fazer nada”, justifica desolado o dono do veículo. “Ele aparece-me a atravessar a estrada de motorizada na mão, nem dei por ele”, explica. E o airbag, lembra a mulher. “É verdade, o airbag abriu-se, só consegui parar lá mais à frente”. De repente, reparamos num anónimo saco de plástico a poucos metros do corpo. Há peixes espalhados em redor. Meus Deus, as bogas, é o homem das bogas, percebemos então. “Foi o meu primeiro patrão”, explicará mais tarde um rapaz das redondezas, “ele não tinha mais de 38 anos...e agora, quem vai dizer à mulher e aos filhos? Tantas vezes que eu o avisei para não beber assim...” Daí a pouco, um bombeiro de Pombal apalpará a carótida do homem das bogas. “Traz o pano”, pede ao colega. Na retina, ficar-nos-á para sempre a imagem do homem, às piruetas, na alegria do alcool, na casa de pasto “Maria do Céu”.

Out Of Touch

Out Of Touch
de Lucinda Williams


Once in awhile we might pass on the street,
We nod we smile and we shuffle our feet,
Making small talk standing face to face,
Hands in our pockets cause we feel so out of place.
Our paths may cross again in some crowded bar,
We feel a little lost cause we've drifted away so far,
Hoping to find the right words to say,
We joke a little and then go on our way.
We are so out of touch.... yeah
We speak in past tense and talk about the weather,
Half broken sentences we try to piece together,
I ask about an old friend that we both used to know,
You said you heard he took his life about five years ago.
We may pass on the interstate,
We honk and cross over to the other lane,
Everybody's going somewhere, everybody's inside,
Hundreds of cars, hundreds of private lives
We are so out of touch, yeah

A luz que nos ilumina

“There Will Be a Light” foi gravado nos Capitol Studios em Los Angeles em duas sessões que não totalizaram mais de oito dias, em Janeiro e Março deste ano. Tendo já Ben Harper colaborado no último álbum do grupo de gospel Blind Boys Of Alabama e tendo também ambos partilhado o palco diversas vezes, partira destes últimos o pedido para que Ben produzisse o seu novo álbum. Atarefado, Ben teve de se escusar mas acabou por entrar em estúdio com eles para gravar um ou dois temas para o disco. Acontece que a experiência se revelou muito mais interessante e criativa para ambos os lados. No fim da primeira sessão, em Janeiro, Ben Harper acabou por gravar cinco temas. Em Março, mais uns dias de estúdio e um álbum de 11 temas gospel ficou completado, não o tradicional álbum gospel mas um disco que absorve muitas das influências já patentes na obra de Ben Harper: soul, funk, country.
O cantor escreveu sete dos temas, aos quais foram juntadas versões como “Well Well Well” de Bob Dylan, “Satisfied mind” ou a tradicional “Mother pray”. Como conceito, “There Will Be a Light” é um álbum dedicado a Deus e à relação com Deus. A nível musical, no entanto, é muito mais complexo, com o gospel e as vozes dos Blind Boys Of Alabama ( Clarence Fountain, Jimmy Carter, George Scott, Ricky McKinnie, Joey Williams, Bobby Butler e Tracy Pierce) a cruzarem-se com diferentes estilos, desde a funk aos blues e à soul.
“Take my hand” começa com uns arremedos de percussão e teclados para depois fundir o gospel com o funk. A voz de Ben Harper lidera o conjunto de vozes dos Blind Boys, de onde depois se solta a de Clarence Fountain repetindo “oh my lord, take my hand, let me walk with you, let me talk with you, don’t let me stumble”. O segundo tema, “Wicked man” é completamente diferente. Sua southern soul por todos os poros. É um daqueles temas que coloca toda a plateia a balançar e a dançar e que são tão do agrado de Ben Harper. Consegue passar a mensagem ao mesmo tempo que dá felicidade, numa bandeja, a quem ouve: “Every man is a common man and every common man has his plan but while the hungry man seek any food in sight, the greedy man seek only appetite. The wicked man shall fall”.
O terceiro tema, “Where could I go”, é uma simples mas belíssima balada gospel infectada de soul em que Ben Harper surge só perante Deus, com o fundo de um piano e de uma discretíssima secção rítmica. “Now I’m coming to you with my arms open wide, where could I go but to the lord”. Em “Church House Steps”, existe de novo muito balanço funky e a Fender sola em liberdade enquanto os Blind Boys of Alabama repetem incansáveis “I sat down upon the church steps”. As coisas tranquilizam, sossegam com o solo de slide acústica de “11th commandment”, que praticamente serve de introdução a “Well Well Well”, um gospel que Ben enriquece com um slide acústico muito Delta Blues. Aqui, quem dialoga são as vozes em coro e a guitarra, que acaba a solar, como num velho tema de blues do Mississipi.
“Picture of Jesus” já surgira no álbum “Diamonds On The Inside”. Ben Harper filosofa sobre o lado tranquilizante e abençoado de uma imagem de Jesus que transporta consigo mas reflete também sobre a forma como as suas palavras foram silenciadas: “There was a man in our time, his words shine bright like the sun, he tried to lift the masses and was crucified by gun”.
“Satisfied mind” começa com uma guitarra blues rock para depois adoptar uma toada bluesy hipnótica em que os versos vão sendo cantados alternadamente por diferentes vozes. “Mother pray” é um gospel tradicional e foi respeitado como tal pelo produtor Ben Harper, a voz do cantor liderando o conjunto coral dos Blind Boys Of Alabama. “There will be a light”, o tema que dá o nome ao álbum, é uma balada soul gospel muito característica de Ben mas que aqui é enriquecida pelas vozes “vintage” de Clarence Fountain e os outros Blind Boys of Alabama. Por fim, o álbum termina com “Church on time” e talvez com o seu tema mais acelerado. Trata-se de um gospel acelerado próprio das celebrações dominicais das igrejas do sul dos Estados Unidos e só falta aqui mesmo uma sacred steel para endiabrar completamente o ritmo. Mais uma vez, cada um interpretará à sua maneira. Que igreja é aquela onde Ben vai ao domingo, com a sua melhor roupa, ouvir o pregador? “Put on your Sunday best, I’ll put on mine, need to hear the preacher give me a sign”. Amen.





“There Will Be a Light”
Ben Harper And The Blind Boys Of Alabama
EMI, distri. EMI-Valentim de Carvalho



2004-09-24

TOMA A MINHA MÃO

"Take My Hand"
de Ben Harper

lord i work to serve you
and i hope i've served you well
i've lived a life to join you
now only time will tell
father dear father
pulled his car to the side of the road
looked at his children with tears in his eyes
said life is too heavy a load
some days i'm struck with sorrow
need a place to hide
there's nowhere else you can put life
but way down deep inside
take my hand when you are worried
take my hand when you're alone
take my hand and let me guide you
take my hand to lead you home

Ben Harper às 8h00 da manhã

A primeira vez que eu sentira algo de especial no Ben Harper fora em Novembro passado, no Pavilhão Atlântico. Tinha passado por mim um daqueles dias de neura enevoada no cérebro, irritação na espinha dorsal e dor na nuca que nem um passeio cinzento à beira mar aliviara. Alguém me pedira para escrever sobre o concerto dele nessa noite e eu aceitei entre a relutância e a satisfação de ter algo com que cortar o tédio de um sábado monótono. Fui para o Pavilhão Atlântico sem expectativas. Nunca assistira a um concerto dele e o disco duplo ao vivo que guardara na prateleira, em casa, não fora suficiente para me prender nem ao homem nem à mensagem. Nessa noite, foi diferente. Não é todas as noites que se sente uma ambiência especial num pavilhão lotado, qualquer coisa que nos faz dizer que as pessoas à nossa volta estão felizes, agradadas. No fim do concerto, não era difícil perceber porquê. O Ben Harper e a sua slide guitar transportam consigo uma tranquilidade que só pode estar próxima de Deus. Seria exaustivo e idiota tentar descrever a aura que, me parece, ele traz consigo e dá aos outros. Cada qual é livre de interpretar as coisas à sua maneira.
Esta manhã, calhou-me na rifa mais uma tarefa relutante: Falar pelo telefone, às 8h00 da manhã, com um Ben Harper cansado e pouco dado a entrevistas, sentado, suponho, algures em Los Angeles à meia-noite local. Disse-lhe que estava ensonado e que acordara há pouco tempo. Ele disse-me "Okay, então vamos ter uma conversa lenta". Depois, procurei o que sabia complicado, falar com ele da religião que exala por todos os poros do último álbum "There Will Be a Light" sem que o incomodasse. E então, ele explicou que não estava a dar entrevistas a ninguém sobre o tema e que fizera essa excepção com Portugal, porque mantinha uma relação especial com o nosso país. "Não estou a dar entrevistas sobre este disco, imagina ter de explicar dez vezes ao dia o que lhe estou a explicar a si..."
E o que me explicou é que escreve sobre Deus ou sobre Jesus ("Picture of Jesus") sem querer impingir Deus a ninguém. "O disco foi feito num contexto cristão porque foi gravado com os Blind Boys Of Alabama mas procurei ser muito cuidadoso com ele. Procurei fazer um gospel que não excluísse nenhuma cultura ou nenhuma religião e quando falo de Jesus, falo da imagem que tenho dele, não estou a dizer às pessoas que o sigam".
O que mais impressiona, no entanto, é a tranquilidade e a educação- "obrigado por tirar um bocado do seu tempo para falar comigo"- que transparece do outro lado da linha. Mais uma vez, tal como naquele dia enevoado e frio de Novembro passado, no Pavilhão Atlântico, senti algo de muito reconfortante e amigo a emanar daquela voz pausada. Se o homem e a sua slide não estão próximas da luz divina, parecem estar ou querer estar. Quem dera poder ser como o Ben Harper ou escrever como ele escreve, extirpar todo o ódio, ressentimento, rancor e inveja que nos tolda a visão e nos envenena o coração. Resta a consolação de que no fim, existe alguém para nos perdoar todos os passos em falso, os disparates, as ofensas, os defeitos, a caricatura idiota em que por vezes nos transformamos. "Where could I go but to the Lord?" (Ben Harper, no álbum "There Will Be A Light".





2004-09-20

Olha o trem...

O Maranhão é uma espécie de uma enorme fazenda do tamanho da França, desarrumada e caótica, onde as estradas asfaltadas se contam pelos dedos e os anos se dividem em duas épocas igualmente quentes: época das chuvas e época seca. Tinhamos a vontade de conhecer Carolina e a Chapada das Mesas, mais as suas cachoeiras (www.carolina.com.br). Simplesmente, entre São Luís e Carolina ficam entre 800 a 900 quilómetros de mato, em cujas estradas, sobretudo à noite, são frequentes os assaltos a "ónibus" (autocarros). Existe mesmo uma empresa de autocarros maranhense, a Açailândia, que só viaja sob escolta policial. Um casal que conhecemos em Carolina e que viajou toda a noite no autocarro da Açailândia, confirmou-me a história da escolta policial.
"É, eu de vez em quando ía espreitando, no banco de trás e vía o carro da polícia atrás do ónibus. Mas eu acho que pouco adianta. Se tiver que ter assalto, tem mesmo...", contava Léo, um carioca, na Pousada dos Candeeiros, já em Carolina.
Uma manhã, decidimos apanhar em São Luís um dos poucos comboios ainda activos no Brasil, a linha de caminho de ferro aberta pela empresa Vale Rio Doce, para transportar o minério (ferro, ouro) que explora na Serra do Carajás, no Pará. O comboio parte de São Luís do Maranhão às 8h00 mais as suas quase vinte carruagens e arrasta-se, Maranhão adentro, atravessando a fronteira com o Estado do Pará já de noite, continuando a passo de caracol em direcção a Marabá, cidade de fronteira e de garimpo.
O Maranhão que, durante cerca de 10 horas de viagem, vamos observando das poucas janelas abertas ao bafo quente dos trópicos, não é bonito. Dir-se-ia que todo o mato, selva, palmeiras e vegetação original foram sendo impiedosamente desmatadas, cercadas por arame e o que restou para a população foram guetos miseráveis onde a população vive em casas de colmo ou pequenas habitações de tijolo, recortadas por ruas de terra batida que não devem ser bonitas de se ver durante a época das chuvas.
Nas paragens mais remotas, filas de populares acotovelam-se junto às janelas das carruagens da classe económica, procurando vender pratos confeccionados em casa, fruta, tudo o que a maioria dos passageiros que ali viaja não poderá comprar na carruagem lanchonete do comboio, por ser demasiado caro. Em Alto Alegre, um rapaz que traz vestidos apenas uns calções, pede-me 50 centavos. Reviro os bolsos, procuro em todo o lado, só me surgem, estupidamente, pequenas moedas de euro. Funcionários da Vale Rio Doce limitam-se a brincar uns com os outros. O rapaz continua ali, no calor absurdo, de mão espetada, os pés descalços, o tronco nú, a repetir "50 centavos" até o comboio retomar o caminho e o fazer desaparecer de vista.
Sempre que regressamos à climatizada e fria carruagem da primeira classe, com televisores para distraír os viajantes mais endinheirados e refeições transportadas até ao assento de cada um, é como se voltássemos a outro mundo, um universo de bagagens modernas, com rodinhas, onde o som de fundo é quase sempre o mesmo: "você me deixou...naquele momento eu só pensava em você..." A loira alta de unhas pintadas do assento atrás do meu, com umas calças de ganga onde debroaram, na parte traseira, em letras cintilantes a palavra "CANCUN", sabe as letras todas de cor.
Para poder chegar a Carolina no dia seguinte, saímos ao fim da tarde na estação de Açailândia, onde apanhámos um autocarro para a maior cidade da região, Imperatriz, uma cidade com uns 10 mil habitantes no princípio dos anos 80 e que hoje tem quase 300 mil habitantes. Sentíamo-nos a abandonar a segurança do comboio quando, mesmo nos bancos à nossa frente, um homem e uma mulher começaram a conversar precisamente sobre segurança:
"Mas pelo menos o trem é mais seguro, né, sem esse negócio de assalto...", dizia o homem.
"Que nada", ripostou a mulher, "uma vez eu 'tava vindo de São Luís, aí um bando de homem armado assaltou a lanchonete do trem, mandaram todo o mundo deitar no chão, não mexeram com passageiro mas levaram todo o dinheiro da lanchonete..."







2004-09-17

Boa vida em Araçagy

Já estavamos há demasiados dias a comer camarão à noite no restaurante o "Mirante" sob o bafo morno dos trópicos, o mar preguiçoso lambendo o areal lá em baixo. Araçagy, a 35 quilómetros de São Luís do Maranhão, é, em Agosto, um daqueles lugares perdidos entre palmeiras, coqueiros e um areal sem fim onde não apetece fazer nada. Não há internet, só vemos televisão se quisermos, as revoadas de forasteiros debandaram em Julho (o mês de "temporada de Verão" no norte do Brasil) e há barracas de praia para todos os gostos. Com o pormenor delicioso de podermos e de certo modo termos mesmo de entrar no extenso areal de carro e escolher a barraca de carro. Mal vê uma viatura, o pessoal das barracas levanta-se do torpor em que parece adormecer o dia inteiro e acena com um pano, fazendo sinal para que estacionemos logo ali. O logo ali é normalmente uma espécie de avançado já feito e calculado para que, à medida que a maré vai descendo, as pessoas cheguem com as viaturas e estacionem perto do mar, com direito a mesas, cadeiras e espreguiçadeira. Outro pormenor delicioso em Araçagy é chamarem-me invariavelmente de "meu patrão" ou "patrãozinho". Toda a vida fui assalariado mas sempre sonhei, um dia, em ser patrão nem que fosse de um pequeno bar country & Western ou de uma pousada na praia chamada "Só Alegria". Qualquer coisa assim.
De modo que sempre que o empregado chegava para limpar a água das últimas chuvas- no Maranhão chove um bocado- ou simplesmente para desempoeirar as cadeiras e dizer o habitual "fica à vontade. Alguma coisa p'ra beber?", a minha auto-estima aumentava.
Só uma vez, um domingo em que Araçagy estava invulgarmente invadida por "farofeiros" (banhistas de domingo semelhantes aos da Caparica mas com idiosincrassias locais próprias), um moço de uma barraca me tratou por "meu anjo". Como na espreguiçadeira ao lado estava deitado um dos meus filhos, tentei convencê-lo de que aquele "meu anjo" era para ele. "Não foi nada, ele chamou-te de "meu anjo" e perguntou "meu anjo, que é que cê quer?" No dia seguinte mudei de barraca e continuei a curtir Araçagy, a comer "anchova grelhada", a abrigar-me da chuva sempre que caía mais um daqueles baldes de chuvada tropical e a regressar para dentro da água do mar morna onde ficávamos a conversar horas a fio. Araçagy está lá, 35 quilómetros a leste de São Luís, sem ninguém, só p'ra você...

2004-09-13

Obrigado André

Acabei de receber através de um mail amigo, uma versão arrasadora que o Jeff Buckley deixou da "Lost Highway" de Hank Williams. É um legado deixado pelo falecido e um lindíssimo tributo, com uma slide de fazer chorar as pedras da calçada, ao maior honky tonker de sempre. Debaixo da solitária laje de pedra do cemitério de Montgomery, Alabama, o homem deve ficar deliciado ao ouvir o que o Jeff fez da sua estrada perdida. Obrigado André.

I'm a rollin' stone all alone and lost
For a life of sin I have paid the cost
When I pass by all the people say
There goes another guy down the lost highway
Just a deck of cards and a jug of wine
And a woman's lies makes a life like mine
O the day we met, I went astray
I started rolling down that lost highway
I was just a lad, nearly 22
Neither good nor bad, just a kid like you
And now I'm lost, too late to pray
Lord I take a cost, on the lost highway
Now boys don't start your ramblin' round
On the road of sin or you’ll be sorrow bound
Take my advice or you'll curse the day
You started rollin' down that lost highway

NOTHING I CAN DO

Parece um submarino atingido por um torpedo mas que tarda em afundar-se. Vagueia pela redacção como um sonâmbulo. Eu sou amigo dele e vejo-o dia para dia a descer às profundezas, sentado vezes sem conta no aquário envidraçado que criaram para os fumadores. Fala pouco, arranco-lhe um sorriso cansado com dificuldade e pergunto-me o que posso fazer. Os olhos entristecidos dizem-me que nada. Abraço-o, dou-lhe uma palmada nas costas, digo-lhe que precisamos dele ali. "Não devias estar a ir-te abaixo". Pousa o cigarro, a barba por aparar, dá mais uma fumaça: "Mas estou, o que é que tu queres..."

Lonely Feeling

Lonely Feeling
de Robert Earl Keen (clique no título e obtenha informação sobre o autor)

It’s a long stretch of highway at midnight in New Mexico
It’s a small colored light that shines from your car radio
It’s the old motel owner who sleeps on a cot
And gives you the very last cup from his pot
It’s a lonely feeling it’s what you’ve got
It’s a lonely feeling like it or not
It’s a crack in the sidewalk right next to a pay telephone
It’s someone’s recorder when hoping that someone is home
It’s an hour to kill to do what you please
But nobody’s up for just shooting the breeze
It’s a lonely feeling it’s like a disease
It’s a lonely feeling you pray that it leaves
It’s three men from Chile who are tired and they wanna go home
They’ve run outta money and they’re stuck up in East Oregon
So you give them the small bit of change in your hand
You try to speak Spanish but they don’t understand
It’s a lonely feeling it gets to a man
It’s a lonely feeling that runs through the land
It’s your best friend from high school who sees you and wishes you well
You try to break through but you run outta stories to tell
So you bid him goodbye and you step into space
There’s so many questions that you cannot face
It’s a lonely feeling taking his place
It’s a lonely feeling you just can’t erase
It’s a statue of Jesus your grandmother had when she died
All cracked and all yellow and you know you should throw it aside
BUT YOU'RE GROWING RELIGIOUS THE OLDER YOU GET
YOU HAVEN'T BEEN SAVED BUT IT COULD HAPPEN YET
It’s a lonely feeling full of regret
It’s a lonely feeling won’t let you forget
It’s a bus stop, a street cop, an old dog, the new kid, a bum
It’s fright and rejected, neglected and blind after dawn
But you look in the mirror and you’re still hanging in
It’s there to remind you how lucky you’ve been
It’s a lonely feeling now and again
It’s only a feeling that comes now and then.

Do álbum "Gringo's Honeymoon" (94)

2004-09-12

Yellow Line Blues

Estação de Metro de Picoas, domingo dia 12 de Setembro. Acho que é por ser domingo e a cidade estar vazia e o inexorável general Outono se estar a aproximar. Há uma colega amiga minha que me conhece há bastantes anos e costuma dizer: "Deixa estar, Nuno, é o Outono. Nunca te deste bem com os dias cinzentos". Há outra que tem uma teoria diferente: "Sempre que voltas de uma estadia prolongada no Brasil ficas assim..." A porta gradeada do átrio sul está fechada aos fins de semana, por isso há que dar a volta pela Fontes Pereira de Melo e entrar pelo norte. Com sorte, sempre se vê uns jovens turistas de mochila às costas, procurando o rumo para a Pousada da Juventude, na Andrade Corvo. Adoro ajudar, conversar, arranhar o inglês, dar uma de idiota no meu mau francês. Às vezes, quando vejo as pessoas desorientadas no hall da estação, paro e deixo-me ficar por ali. Não gosto de as abordar repentinamente mas também não quero que se sintam sózinhas. Por vezes são pessoas do campo, como o casal de olhar assustado e branco que se cruzou comigo há dias na linha amarela. Outras vezes, são jovens turistas de mapa na mão, nipónicas, escandinavas, magras, altas, gordas. Não quero que pensem que as pretendo assediar mas sinto a insegurança de quem pisa ramo verde, calçadas estranhas e fico por ali. Digo para dentro de mim: "Precisas de ajuda?" Na maior parte dos casos, desaparecem na correnteza das entradas e saídas do metropolitano, tão depressa como aqueles rostos colados ao vidro que desaparecem em velocidade quando a carruagem deixa a estação em direcção ao túnel.
Mas hoje não há ninguém. Ou seja, estão algumas pessoas na plataforma. Quando o placard electrónico marca 19h43, um casal beija-se com paixão do outro lado da estação. Estão encostados a uma parede e parecem felizes. Percorro toda a plataforma. Há mais um casal de namorados, ela com o cabelo encaracolado por cima do ombro dele. Vieram do cinema? Foram ao shopping? Divertiram-se? Será que não haverá ninguém nesta maldita estação que tenha estado, como eu, imerso em tédio e total aborrecimento dentro de um escritório, a trabalhar a um domingo ou pelo menos a cumprir horário sob o lento compasso das horas? Fixo-me numa mulher jovem de blusão de ganga sentada num dos bancos, ao fundo. Ela sim, parece alguém com quem me possa identificar, uma figura solitária, mulher trabalhadora a regressar de um emprego na limpeza de um Banco. Observo se traz uma daquelas bolsas baratas ou uma revista feminina, como sempre parecem trazer. Mas não, não está só, tem um telemóvel e está assoberbada a ver as mensagens. Não está ali, está algures em comunicação com alguém que lhe enviou uma mensagem. De Almada? De Loures? Algures de um T-3 em Santo António dos Cavaleiros?
De modo que aqui estou eu, comigo próprio, o meu amigo Outono a chegar para me fazer vestir um polo, me enevoar as manhãs e pôr o mar ao pé de casa a fazer brum...brum...PICOAS, O ÁTRIO SUL ENCERRA AOS FINS DE SEMANA. Maldita cidade outonal...




No Surrender

No Surrender
de Bruce Springsteen


We busted out of class
had to get away from those fools
We learned more from a three minute record
than we ever learned in school
Tonight I hear the neighborhood drummer sound
I can feel my heart begin to pound
You say you're tired and you just want to close your eyes
and follow your dreams down
We made a promise
we swore we'd always remember
No retreat no surrender
Like soldiers in the winter's night with a vow to defend
No retreat no surrender
Now young faces grow sad and old and hearts of fire grow cold
We swore blood brothers against the wind
I'm ready to grow young again
And hear your sister's voice calling us home across the open yards
Well maybe we could cut someplace of our own
With these drums and these guitars
Blood brothers in the stormy night with a vow to defend
No retreat no surrender
Now on the street tonight the lights grow dim
The walls of my room are closing in
There's a war outside still raging
you say it ain't ours anymore to win
I want to sleep beneath peaceful skies in my lover's bed
with a wide open country in my eyes
and these romantic dreams in my head

2004-09-11

"E AINDA TEM GENTE QUE ACHA QUE DEUS NÃO EXISTE"

"E ainda tem gente que acha que Deus não existe..."
Claudio Monardi, dono da Fazenda Carmo, na Ilha do Marajó, perante o pôr do Sol que presenciamos a cavalo, uma outra garça incomodando os búfalos, que se presenteiam na lama, um horizonte cor de sangue a desvanecer-se à nossa frente.

2004-09-10

To my blood brothers

Aos verdadeiros amigos, eles sabem quem são


Blood Brothers
de Bruce Springsteen


We played king of the mountain out on the end
The world come chargin' up the hill, and we were women and men
Now there's so much that time, time and memory fade away
We got our own roads to ride and chances we gotta take
We stood side by side each one fightin' for the other
We said until we died we'd always be blood brothers
Now the hardness of this world slowly grinds your dreams away
Makin' a fool's joke out of the promises we make
And what once seemed black and white turns to so many shades of gray
We lose ourselves in work to do and bills to pay
And it's a ride, ride, ride, and there ain't much cover
With no one runnin' by your side my blood brother
On through the houses of the dead past those fallen in their tracks
Always movin' ahead and never lookin' back
Now I don't know how I feel, I don't know how I feel tonight
If I've fallen 'neath the wheel, if I've lost or I've gained sight
I don't even know why, I don't know why I made this call
Or if any of this matters anymore after all
But the stars are burnin' bright like some mystery uncovered
I'll keep movin' through the dark with you in my heart
My blood brother

My darkened corner

Habituei-me há muito a ouvir country e blues. Têm as letras mais desgraçadas deste mundo. Quando estás down, sentes que não te encontras só. Está ali o Johnny Cash a cantar "At my door the leaves are falling, a cold wild wind has come, sweethearts walk by together and I still miss someone. I go out on a party and look for a little fun but I find a darkened corner because I still miss someone. Oh, no I never got over those blues eyes. I see them every where. I miss those arms that held me. When all the love was there I wonder if she's sorry. For leavin' what we'd begun. There's someone for me somewhere and I still miss someone".
Por vezes, também sinto necessidade do meu "darkened corner", o lugar onde ninguém te vê e podes expiar toda a tristeza que te invade. Ultimamente sinto que há demasiadas vozes na cidade, demasiados carros e demasiado atropelo. Sinto falta da trilha poeirenta que te leva, no fundo dos fundos do Maranhão, ao Poço Azul e à Cachoeira de Santa Bárbara, à beleza bíblica da cachoeira da Pedra Caída. Na cidade não há pôr do sol como aquele da Fazenda do Carmo, a planura molhada da Ilha do Marajó até ao infinito, as redes balouçando na varanda e a gente a cavalo, o sol a desfazer-se em sangue de um lado, uma lua gorda, branca e leitosa a nascer do outro lado, o latir dos cães a ladrar aos búfalos como único sinal de stress.
Regresso à cidade e sinto-me atropelado. Alguém a tentar ultrapassar-me pela direita com um piscar de olho malandro e sedutor. Outro alguém a chamar-me de amigo para obter proveitos. Uma cidade cheia de vozes que me risca e arranha o cérebro como buzinas que nunca se calam. Na selva, as cobras fogem-te dos pés ao mínimo pisar das botas na folhagem. Na cidade, nunca sabes onde elas estão. Por isso, às vezes sinto necessidade do "darkened corner" de onde observo os jogadores, os lances, onde vejo quem dá mais, quem vai levar o bouquet da noiva ou a cereja do bolo, quem vai correr à frente dos outros para ficar com a primeira cadeira.
Mas na cidade, eu sei, também tenho os meus "blood brothers" e sei onde eles estão. Obrigado Rui, cada viagem de trabalho contigo é um desabafo e obrigado pela forma como ontem me estendeste os lenços de papel, como dizendo: "Take it my blood brother, take all you need, no need to suffer alone, I'm here brother..."Obrigado, Inês, pela preocupação de mãe de 24 anos. E Obrigado ao Ponto, do Blog Ponto & Vírgula. Não esperava. Thank you brothers, I know where you are...




2004-09-05

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O regresso a casa depois de bastante tempo fora oscila sempre entre o estranho e o óbvio. O estranho é que ainda estamos com metade do corpo e da mente no outro país, o óbvio é que já sabemos de antemão o que nos espera: aquele cansaço brutal da viagem de avião misturado com as características habituais de um regresso a Lisboa (a espera interminável pelas bagagens no aeroporto, a conversa chapa 5 do taxista alfacinha e a sensação de passar sob o efeito de extremo cansaço junto à esplanada do café da rua e ver lá as mesmas pessoas, dir-se-ia que nas mesmas posições do que há cinco semanas atrás).
Bom, depois de três noites a dormir na rede, debaixo do ventilador, em casa da Rose, em Fortaleza e de uma noite muito mal dormida no avião, fui buscar o cão a Albogas (Almargem do Bispo) e caí directamente na cama. Nem Letónia-Portugal, nem stripper a atravessar o relvado nem crise dos reféns na Ossétia do Norte...Hoje acordei recuperado e corri a oferecer a garrafa de aguardente cearense Sapupara ao senhor Claudino, dono do cafézinho perto de casa. Ele nem sonha que a garrafa custou menos de um euro. Adorou. Colocou-a junto com as melhores garrafas da casa, como um troféu num pedestal. Para melhorar o efeito da oferta, estava lá no café um paulista com uma t-shirt do Corinthians. Não parámos de falar do Brasil. "Eu tenho de ir ao Brasil, é desta que eu tenho de ir", dizia o Claudino. Fui a casa buscar um gigantesco mapa do Brasil que ocupa metade do balcão e mais uns livros com fotos do fotógrafo brasileiro Araquém Alcântara e deixei lá, para permitir ao senhor Claudino sonhar. Deixei o café no momento em que um português interpelava o paulista: "Voltando aquela conversa de há bocado, dizem que os brasileiros não querem trabalhar..."